terça-feira, 8 de março de 2011

Nem Freud explica.

Quem não compreende um olhar,
tampouco compreenderá uma longa explicação
 
 
Acorda cedo, estica a perna, esfrega os olhos. Vira para o lado, se encolhe em concha.
Tenta lembrar do sonho e confunde com o que sonhou acordada. Espreguiça, levanta.
Olha o cabelo, escova os dentes e toma banho. Seca o cabelo, seca dor...
Café preto, café com leite, conforme o tempo permitir... Café expresso!

Abre a porta, o sorriso e espera o dia se abrir, acredita que se não for agora, ainda está por vir.

Coroa-se de esperança, bailarina, a vida é sua parceira de dança; equilibrista, advogada, mãe, amiga, médica, esposa, filha, diretora, faxineira, bilheteira, frentista, cantora, escritora, poetisa, apresentadora, ama de leite, dona de casa, professora e artista.

Chora, se encanta, ri, cai, levanta, rala o joelho e não se espanta.

E na hora do amor é Colombina, sem pudor, amor de carnaval, marinheira dos desejos, batalha naval, cajueiro, flor afrodisíaca, raiz profunda, beleza paradisíaca.

Pede colo, um pouco de amor, não faz cerimônia pra solicitar um abraço amigo, um gesto qualquer de calor.

Que difícil entender, complicado acompanhar e impossível não se render à inquestionável força existente na fragilidade de uma mulher.
 

domingo, 6 de março de 2011

Circo, cinza e pão. Nesta ordem !

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mund
o.

Mario Quintana - Espelho Mágico

Quando éramos crianças minha mãe sempre fazia fantasias para nós com sobras de retalhos, alguns adereços plásticos, carinho e criatividade.
Como eram divertidas as matinês no Esporte Clube União ao som das marchinhas antigas de carnaval em seu salão com tenda de circo.
Lembrando disso, me ponho a pensar em tudo que tenho visto ou lido nos últimos dias.

É verdade: em nossa sociedade, indiscutivelmente existe mais circo do que pão. É verdade que há muito desperdício (de tempo e dinheiro), movimentando a economia local das folias.
Alguém comentou que a renda dos desfiles do Rio de Janeiro, por exemplo, poderia ter parte destinada para recuperação das regiões serranas atingidas pelas chuvas do início do ano.
Sem contar as notícias sobre o número de acidentes nas estradas, aumento das DSTs, e a overdose televisiva de seios e bundas...
Está bem! Aqui somente quero ressaltar um outro olhar, menos crítico.

Ainda que tudo figure como um grande circo com muito “mais de mil palhaços no salão”, como já cantava Zé Kéti em sua marchinha de 1967, como ignorar a paixão e a dedicação das comunidades e agremiações que compõem as escolas de samba?
Sabe lá quantos assuntos obscuros estão por trás ou na frente dessas estórias, mas quero sim um olhar mais sereno, a vida já exige demais de mim também.

Fora das manchetes estão muitas pessoas em pequenas reuniões familiares que só são possíveis para elas em feriadões como esse.
Assim como grupos de amigos que aproveitam para fortificar seus laços sem bagunça ou imprudência, apenas pelo prazer de confraternizar e estar entre pessoas queridas.

Existem diversos programas culturais alternativos, deliciosas matinês, como as que eu ia com a minha mãe, nas quais acompanhando minha sobrinha de dois anos vislumbro inúmeras pessoas vivendo para lá do seu sexagésimo carnaval, colhendo agora os confetes do pequeno sossego de uma vida inteira de trabalho.

Conheço grupos que promovem a “folia do voluntariado” destinando seus esforços ao entretenimento de crianças carentes com atividades lúdicas e oficinas de arte.

Pode ser muito romântico de minha parte, mas o que me comove em todos os nossos grandes circos, como o carnaval e a copa do mundo, não são o “como” e o “porquê”, mas sim perceber que esta alegria quase unânime e muitas vezes desmedida é a maneira pura e genuína de cada um conviver com suas próprias cinzas pessoais, antes mesmo de a quarta-feira chegar.

E no final das contas cada um se volta para o lado que convém, para o que interessa e chama sua atenção, de acordo com seu nível vibratório.
Bom ou não, as opções estão todas aí.

Depois de tudo, para os que gostam ou desgostam, concordem comigo ou não, estaremos todos esperando o próximo circo, capaz de suavizar o ardor de nossas cinzas. 
Cinzas, é bom ressaltar,  que não são capazes de apagar nossas aspirações em busca do pão.
Nesta ordem!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Mente humana, humanamente.

EXAME DE CONSCIÊNCIA
Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?
Mario Quintana - Caderno H


Havia uma senhora e se via que estava falando sozinha.
Falando sozinha como tantos que vemos por aí em suas solitárias (?) conversas pessoais.
Ela não falava sozinha simplesmente, contava uma história, dessas que qualquer um de nós pode viver, mas que ninguém parou para ouvir e sobre o que era ninguém sabe dizer.
E quem ouviu a chamou de louca ou achou graça ou teve dó, mas ninguém escutou o que ela dizia.
Humanamente seguia em sua história com vigor e dedicação, e ria (sozinha) e fazia pausas (sozinha) e quase chorou.
Depois gargalhou e queria um balde, queria apenas um balde pra passar água sanitária e poder usar, era um balde bom e estava jogado na rua, mas ela podia usar.
E já que ninguém ouviu ela continuou falando sozinha ( ?) em seu intricado universo paralelo que é a mente humana.
Cambiando de lugar com quem está ao nosso lado, o que se sente? Ir além da empatia.
Trocar a alma de corpo, não por um dia, por algumas horas, absorver a vivência daquele corpo novo, sentir com nossos próprios padrões morais tudo o que ele viveu e por alguns instantes observar a vida de dentro dele como se fosse uma janela com uma nova vista além daquela que estamos acostumados.
Vê-se com os mesmos olhos? Esperam-se as mesmas coisas? Ou seria o balde suficiente para querer parar, sem nenhum alvoroço fazer uma pequena parada, livre e disposta a ultrapassar os limites da mente humana e apesar de tudo viver, simples e humanamente.

domingo, 29 de agosto de 2010

Sonho, pensamento e matéria.

ARTE POÉTICA
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.
Mario Quintana (Caderno H)
 
 
Nunca imaginei que a primeira vez que eu fosse visitar a Bienal do livro fosse justamente para participar do lançamento de um livro que leva um texto meu.
 
Cheguei e vi um mar de pessoas navegando num universo de letras. Que delícia ! 
 
Desenfreadamente busquei a rua "N" onde estava o estande que para mim era naquele momento o mais importante. 
 
Que Maurício de Souza, que Ziraldo , que nada!
Nenhum desses autores rodeados de pessoas com livros e gibis em punho para autografar me interessavam. 
Estava mesmo interessa em saber qual a sensação de ver um pensamento se materializar, e vi.
 
Talvez não tenha o talento necessário para descrever a emoção do momento em que, com o livro nas mãos, aberto de um golpe só exatamente na página onde está minha poesia, vi ali, no rodapé, meu nome e algumas palavras sobre mim.
Um pequenino e modesto texto, uma gota no oceano literário, que por ser uma  gota desceu lentamente do canto dos meus olhos em forma de uma lágrima.
 
Uma lágrima doce que só sabe o gosto quem já teve o prazer de alcançar um objetivo que por sua simplicidade o faz tão especial.
 
E agora ele está aqui, ao lado de outros livros da minha estante que portam sonhos em suas folhas.
Como um tímido vizinho se acostumando com a nova vizinhança, modesto e discreto, entre Mário Quintana e Cecília Meireles.



sábado, 14 de agosto de 2010

Observação

Dupla delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana


E nesta tarde de vento tão gelado, esta frase também me faz pensar nesse nosso universo paralelo que é a internet.
Pensar na amiga que agora está no "esquenta" da comemoração de seu aniversário em NY, ou na que está estudando na Austrália, ou no bairro vizinho ou do outro lado da cidade, nos primos, perto, distante, dentro, fora, todo dia e toda hora longe e próximo.
E se não os vejo, os leio, torço e rio com eles.

E daí, sinto o morno aconchego desta vida, que por aqui vai caminhando e das que daqui vou acompanhando.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

25 Poesias e tantas outras coisas !

 "...O poeta canta a si mesmo porque de si mesmo é diverso..."
Mário Quintana



Amigos,
Tenho a sorte e o prazer de compartilhar que mais uma vez uma poesia minha fará parte de uma antologia.
Esta, entitulada 25 Poesias, será lançada em 21/agosto/2010 na Bienal do Livro de São Paulo, no estande da Livrus-Giz Editorial.
Abaixo a poesia classificada para a edição do livro deste ano:

25 Poesias


Há dias em que as nuvens se enlaçam
numa ciranda triste, de tristes amantes.
De mãos dadas escurecem o dia
escondendo a luz de um sol antes brilhante.
Mas um coração que lateja
Como o calor que há no centro da Terra,
logo liberta raios que fogem
em fuga louca que desespera...
E essa tristeza assim tão fugas
que fingida se disfarça de amiga,
sorri enquanto chora o amor que escurece
de lampejo sua tempestiva vida.
Mas se é vero que triste é o poeta
conforma-se o sol como que entorpecido com 50 anestesias
pois na tristeza a arte se manifesta
dando luz a 25 poesias.

sábado, 1 de maio de 2010

Limites e Limitações

A COISA

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mario Quintana (Caderno H)



Tenho me questionado ultimamente sobre meus limites e como reconhecê-los.
Qual critério devo adotar para analisar isso ?
Penso muito, logo tenho a mente fértil demais.
Por ter a mente fértil demais ,tenho que ser organizada.
Sou organizada, logo sou detalhista.
Por ser detalhista sou metódica.
Sou metódica, logo sou exigente.
Por ser exigente sou chata. Eu reconheço...
Mas será que é preciso tanto ? Será que não dá pra ser um pouco mais leve ? Será que não é isso que me faz questionar os meus limites ?
É provável que eu tenha imposto um padrão elevado demais para alcançar e isso requer muito esforço, muita concentração, muito detalhe, muita metodologia e é uma chatice.
Rumo a (mais) uma nova fase da vida penso que minha conduta requer um pouco mais de leveza.
Talvez eu possa alcançar meus objetivos sem tanta cobrança.
Autocobrança, que é a pior de todas.
Sou tão condescendente com as limitações alheias e não sou com as minhas. Sequer consigo defini-las.
Conversando com alguns amigos, noto que muitas pessoas enveredam por um caminho de dúvidas e questionamentos porque são assim também. Não se perdoam.
Sempre acham que poderiam ter feito mais, melhor ou diferente.
As vezes, poderiam mesmo, mas e daí ? É justamente por isso que a vida dá novas oportunidades.
Talvez eu possa agora pensar um pouco menos e assim criar menos teorias.
Com menos teorias, talvez eu possa ter mais clareza e tempo para me organizar.
Com mais tempo, talvez não seja necessário se ater a detalhes dispensáveis.
Com menos detalhes a metodologia é mais simples.
Com mais simplicidade, posso não ser tão exigente comigo mesma.
E menos exigente, talvez seja mais divertido.
E daí nem precisa tanto esforço, tanta concentração, tanto detalhe pra reconhecer, e aceitar nossos limites e as limitações.



 

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ser ou não ser

AS INDAGAÇÕES
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
Mario Quintana (Caderno H)


Existe um tom de azul que eu sempre acho que é verde.
Meu senso de orientação é um fiasco: sigo rumo ao oeste quando penso que estou indo para leste e muitas vezes, tenho que pensar antes de indicar com um gesto onde fica o lado esquerdo ou o direito.
Pelo menos uma vez por dia atravesso um momento de dúvida.
O que tenho percebido com isso é que hesitar é mais comum do que parece. Faz parte da condição humana, já que a vida é mesmo feita de escolhas.
Hesitar pode ser uma saudável pausa para refletir por mais um segundo e uma poderosa ferramenta de contenção de más decisões.
Um único segundo de dúvida representa a tênue linha que separa a emoção da razão, o impulso da coerência.
O perigo em hesitar não é o engano, já que o acerto também joga com probabilidades e pontos de vista e não só com a ciência e a experiência. Perigo é transformar a hesitação reflexiva em indecisão crônica.
Perder a capacidade de tomar uma decisão num vicioso vai e volta de idéias e passar a andar em círculos e não mais para a frente rumo a um objetivo concreto. Isso sim é perigoso.
O equilíbrio entre a hesitação saudável e a indecisão nociva está no exercício constante da paz de espírito e na certeza de que temos a liberdade de escolha, cientes das responsabilidades e consequências imediatamente ligadas a elas.
Somente incorporando essa filosofia no nosso dia a dia podemos exercer com tranquilidade as nossas constantes e eternas reflexões sobre o ser ou não ser.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequeno Esclarecimento

PEQUENO ESCLARECIMENTO
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mario Quintana


E eu daqui de minha silenciosa falta de inspiração para outros assuntos, deixo uma pequena contribuição, para que caso queira, possa aproveitar essas dicas sobre o novo acordo ortográfico de nossa língua portuguesa.

Abaixo seguem os prefixos em que o hífen deve ou não ser empregado, visto que essa é uma das regras que causa maior número de dúvidas.


O acordo completo, com todas as regras pode ser visualizado no seguinte endereço : http://www.priberam.pt/docs/AcOrtog90.pdf


UTILIZAÇÃO DE HÍFEN


Para os prefixos : aero, agro, alvi, ante, anti, arqui , auto, contra, eletro, entre, extra ,foto, geo, hidro, infra, intra, macro ,maxi, mega, micro, mini, moto, multi, nano, neo, pluri, poli, proto, pseudo ,retro, semi, sobre, socio, supra, tele ,tri, ultra, vaso, vídeo

Usa-se o hífen : para vogal igual à final do prefixo e para palavras começadas com a letra H
Exemplos : anti-inflamatório, mega-amiga, micro-organismo, ultra-apressado, sobre-humano, tele-homenagem

Não se usa o hífen : para vogal diferente à final do prefixo , palavras com R, S, B, M, N e outras
Exemplos: autoestima, autorretrato, socieconômico, semirrígido, infravermelho
_______________________________________________________

Para os prefixos: circum, pan

Usa-se o hífen : para vogal, palavras com H, M e N.
Exemplos: circum-ambiente, circum-navegar

Não se usa hífen : para palavras com as demais letras
Exemplos: panceleste
_______________________________________________________
Para os prefixos: ciber, hiper, inter, super

Usa-se o hífen : para palavras começadas com H e R
Exemplos : super-homem, hiper-radical

Não se usa o hífen : para vogais e demais letras
Exemplos: cibercafé, superamigo, interdisciplinar
_______________________________________________________
Para os prefixos: sob , sub

Usa-se o hífen : para palavras começadas com H, R e B
Exemplos : sub-reitor, sub-humano

Não se usa o hífen : para vogais e demais letras
Exemplos: subalugar
______________________________________________________
Para os prefixos : co, re

Usa-se o hífen: apenas para palavras começadas com H
Exemplos: re-humanizar

Para as demais palavras com esse prefixo não se usa hífen:
Exemplos: cooperar, coautor, reavaliar, reescrever
_______________________________________________________
Para os prefixos : além, aquém,bem, ex, pós, pré, pró ,recém, sem, vice

Usa-se o hífen em todas as palavras
Exemplos : além-mar, vice-campeão, bem-educado, pré-natal

Observações importantes :


  • Para os prefixos des e in , não se usa hífen quando o segundo termo perdeu o H original : desumano, inábil;


  • Para os prefixos mal e bem, usa-se o hífen quando formar com a outra palavra um adjetivo ou substantivo : mal-estar, mal-humorado


  • Para os prefixos pós, pré e pró, quando a pronúncia for fechada (pos, pre, pro), não se usa o hífen : preencher, proposto ( exceções: preaquecer, predeterminar, preestabelecer, preexistir.

Espero que seja superútil.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tudo é treino.

Onze e meia da manhã começa o treino na escolinha de futebol. Meu filho está matriculado desde julho e essa é nossa rotina aos sábados.
Eu o levo, fico assistindo, dando uns gritos na torcida com as outras mães e pais como perfeitas corujas no galho piando para as suas corujinhas. Mas os gritos só aparecem na hora do coletivo. Antes, no treino físico é momento para as conversas sobre assuntos diversos.
Uns interessantes outros nem tanto.

Hoje o sol morno acariciou as corujas e aplicou uma sonolência fora do habitual, assim as conversas sobre assuntos diversos deram lugar para a observação do primeiro momento do treino.
O professor colocou uns cones no meio do campo e as crianças tinham que correr até o primeiro, voltar de costas e correr até o segundo colocado um pouco mais longe.
Era curioso observar a habilidade de alguns alunos (ou a falta dela em outros), no momento em que tinham que recuar, correndo voltar ao ponto de partida e dar novo pique.

Como o exercício se repetiu por diversas vezes, os menos habilidosos logo pegaram o jeito e ao final dessa primeira parte tudo saiu conforme o intencionado.

No meu silêncio morno de coruja calada pensei que é difícil mesmo voltar, andar para trás. E tantas vezes são inevitáveis essas voltas, de costas de preferência para não perder o foco e dar novo pique.

Quem nunca teve que voltar atrás provavelmente perdeu-se no caminho.

O que parece um retrocesso muitas vezes é o processo que impulsiona a chegada ao objetivo desejado, num segundo pique.Não temos mesmo como saber se a primeira tentativa vai dar certo e algumas vezes não dá.

“Tudo é treino”: frase da queridíssima e tão despretensiosamente sábia Márcia Pilikian. Uma frase curta e certeira, uma verdade.
Lembrei imediatamente dela enquanto esses pensamentos se passavam por minha cabeça coruja (es) piando minha corujinha.

Voltar atrás e dar um novo pique na vida também é treino.
Contrariados, esgotados, cansados, esperançosos e depois determinados. Voltar e correr, voltar e correr, voltar e correr e enfim chegar...

Tudo é treino.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um dia perfeito

A chave correu suavemente pela fechadura como se uma gota de óleo tivesse acabado de ser depositada naquele local. Não ouvi o ruído habitual do portão envelhecido, tudo estava sereno e apesar da neblina do início da manhã, o sol timidamente se anunciava.

Uma mulher passou apressada por mim com passinhos curtos e um nervoso toc toc do salto estalava no asfalto contrastando com meu andar suave, como se a rua estivesse forrada com montinhos de algodão.

Acostumada com o rumor matutino, essas sensações logo me chamaram a atenção. Tive que correr um pouquinho para não perder o ônibus, mas ainda tinha lugar vago.

Interrompi a leitura durante o percurso: alguém cantarolava uma música desconhecida, mas tão melodiosa e agradável que revelou em mim aquele sorriso discreto que fica guardado no canto da boca esperando a oportunidade de se manifestar.

Sensações como esta estão fora de nosso controle. Tomam-nos pela mão, invadem nossa alma, instalam-se em nossos olhos como uma lente transformadora. De repente enxergamos as andorinhas voando de um prédio para outro nessa selva de pedra, uma mangueira com manga (!) no canteiro da Av. Nove de Julho e suspiramos... longamente.

É um estado de espírito e o estranhamos porque na correria cotidiana passa despercebido, tanto que desaprendemos como se chama. Apenas temos gratidão por senti-lo e saber que ele existe, mas não estamos certos de qual é o seu nome.

O deste deve ser PAZ.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Cada pessoa é um universo

“...cada pessoa é um universo...”

Ouvi essa frase ontem e de todas que eu ouvi no meu dia foi a que mais me tocou.
Fez-me pensar em cada pessoa que já passou por minha vida, profunda ou levemente.

Também me fez refletir sobre todas as coisas incompreendidas que permeiam nossa vida e nos raros momentos em que nos colocamos no lugar do outro para tentar ter o mínimo de compreensão sobre uma ação ou outra.

Seria tão importante exercitar essa pausa, especialmente ao ser contrariado, parar e tentar imaginar o que pode mover nosso interlocutor naquela direção tão oposta à nossa.

Seria importante exercitar essa pausa para observar nossas próprias ações também, evitando sentimentos autopersecutórios e um pesado fardo de culpa.

Algumas vezes agimos com os elementos e condições que temos à disposição para agir no momento, nem sempre os melhores, mas são os elementos dos quais dispomos.

As experiências revelam, fortalecem, conduzem e até libertam, mas os caminhos podem ser muito compridos para nos ensinar coisas que pelos mais curtos provavelmente não seria possível aprender.

Neste mar de venturas e desventuras que é nosso caminhar, é fascinante perceber que os erros e acertos também são frutos de nossas vivências e que somente a nós cabe administrar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Pai (anti) herói

Meu avô paterno Joaquim Pereira, falecido em 1995, foi segundo contam, um péssimo marido e pai ausente para cada um dos seus quatro filhos, no entanto foi o melhor avô do mundo para mim. As lembranças que tenho dele são de um tempo em que minha avó, cansada do sofrimento, já havia resolvido a questão com o divórcio e os filhos estavam todos criados, não conheci o Joaquim marido, nem pai, portanto sobrou o avô.
Ele morava conosco em uma casa típica do interior e quando eu ouvia os ruídos dos morcegos, era para o colo dele que eu corria.
Ao lado de nossa casa havia um pasto com uma árvore bem no meio e nela morava uma coruja. Meu avô aproveitava esse cenário e colocava a imaginação para funcionar desfiando de seu inesgotável novelo de contos, as mais diversas teorias sobre a coruja, a árvore e os morcegos. Caminhava comigo nos ombros e pedia que eu cumprimentasse cada pessoa que passava por nós.
- Fala “ bá. tarde” pro moço, fia !
- Tarde moço.
E assim seguíamos aquele início de infância.
Ao completar seis anos, nos mudamos para São Paulo, e o convívio com meu avô rareou, limitando-se aos passeios de férias, mas ele escrevia cartas e cartas, me contando as continuações das histórias sobre a coruja e os morcegos.
Nas cartas dizia para minha mãe que “as crianças são nosso maior tesouro”.
Seria resultado de uma sabedoria tardia?
Aproximadamente dois anos depois disso, meus pais se separaram. Eu fiquei cinco anos sem ter notícias do meu pai. Quando retomamos o contato, infelizmente, o alcoolismo havia tomado um lugar de importância em sua história – e na nossa. Eu tentei me manter ao lado dele dentro das possibilidades que a vida permitiu, não sei se foi suficiente... Assim, como aconteceu com meu avô, meu contato com meu pai também rareou. Somente vez ou outra nos víamos e eu sempre tinha a sensação que ele estava desconsertado, então ficávamos invariavelmente quietos e de mãos dadas, e nesta época as férias passaram a ser na casa de minha tia Sônia e meu tio Márcio.
Foi ele, meu tio Márcio, que me ensinou as primeiras palavras em inglês (talvez ele não se lembre, ou não sabe disso), ele dançou comigo a valsa dos meus 15 anos (talvez se lembre, mas não mensura a importância disso), foi ele que me deu conselhos, que acompanhou minha adolescência doando seu amor paternal e me viu virar uma mulher.
Lembrando do que se passou até que essa mulher surgisse, penso nesses pais: no meu avô querido, que foi avô porque provavelmente era melhor nisso do que ser pai, no meu tio favorito que foi meu pai sem reservas, e no meu pai, que em 2003 me deu a alegria e o orgulho de vê-lo depois de um longo tratamento – apoiado pelos meus tios Márcio e Sônia – se recuperar e reviver.
Penso também em tantos outros pais: os que adotam e os que são adotados; os ausentes e os presentes; os corajosos e os covardes; os carinhosos e os violentos; os ocultos e os cientes; os amados e os odiados; nos que estão aqui e nos que já se foram.
Penso neles porque estejamos fatigados ou com saudade, seja pelo amor ou pela dor, por sentirmos rancor ou orgulho, por algo que fizeram ou deixaram de fazer, ninguém passa pela vida sem pensar no seu pai.

"Pai!Pode ser que daqui a algum tempo haja tempo prá gente ser mais, muito mais que dois grandes amigos, pai e filho talvez...
Pai!Pode ser que daí você sinta, qualquer coisa entre esses vinte ou trinta longos anos em busca de paz...
Pai!Pode crer, eu tô bem, eu vou indo, tô tentando, vivendo e pedindo, com loucura prá você renascer...
Pai!Eu não faço questão de ser tudo, só não quero e não vou ficar mudo prá falar de amor prá você...
Pai!Senta aqui que o jantar tá na mesa, fala um pouco tua voz tá tão presa, nos ensine esse jogo da vida, onde a vida só paga prá ver...
Pai!Me perdoa essa insegurança, é que eu não sou mais aquela criança que um dia morrendo de medo , nos teus braços você fez segredo, nos teus passos você foi mais eu...
Pai!Eu cresci e não houve outro jeito, quero só recostar no teu peito, prá pedir prá você ir lá em casa e brincar de vovô com meu filho no tapete da sala de estarPai!Você foi meu herói meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo, nem você nem ninguém tá sozinho, você faz parte desse caminho que hoje eu sigo em pazPai! Paz!..."

Fábio Jr.
Composição: Fábio Jr.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ponto Final

( crônica finalista no Concurso de Crônicas de Porto Seguro)

Até hoje, exceto na linguagem escrita onde as frases se iniciam com letra maiúscula e terminam com ponto final, fico tentando entender onde é o início e o fim das coisas.

Quantas vezes nos vemos tratando uma situação com importância de letra minúscula e quando nos damos conta era a letra mestra do momento mais importante de nossa vida.

Tanta história é escrita com letra maiúscula do inicio até o final e o tempo demonstra que esta ou aquela, não passava de uma notinha de rodapé.

A pontuação que damos às situações são as mais engraçadas: colocamos ponto e vírgula num determinado assunto e nunca mais voltamos a falar nele.
A interrogação acompanha perguntas para as quais já temos respostas, e falsas exclamações aparecem nas coisas mais óbvias.

E o ponto final? Quando dá cria e vira reticências deixa a dúvida ou o prolongamento do que já terminou. Quase sempre desnecessariamente.

As vírgulas são minhas preferidas. Minha professora do primário nos ensinava ler, “respirando” na vírgula. E não são poucas as vezes que colocamos mais vírgulas como um artifício para parar, respirar e respirar, mas mesmo assim ainda nos sentimos sufocados.

Assim é nossa vida, um compilado de histórias que vamos escrevendo sem muitas regras gramaticais, o tempo todo mudando as sentenças e tratando tantos assuntos entre aspas, precisando colocar parênteses nas frases (ou seriam fases?) de nossa vida para nos fazer entender.

Histórias que às vezes vira um rascunho e outras vezes enchemos a borda de florzinhas como nos cadernos de escola. E dá vontade de voltar atrás e escrever tudo de novo, anotando pensamentos e copiando versos do Vinicius, em papel de seda, com caneta de ponta porosa, dá vontade de mandar emoldurar, colocar na sala, reler todo dia e acrescentar mais uma frase, corrigindo alguns erros.

Resignados em nunca saber como será o fim daquilo que nossa experiência vai escrevendo, fim que só conheceremos quando acabar a tinta da caneta da nossa vida.

E ponto final.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Guardando a caixa no armário.

Mês que vem completará um ano que retomei a terapia. Santa e salvadora terapia.

Terapia é mesmo o lugar pra expulsar os demônios e adestrar os filhotinhos que vão ficando, e eu também acho que deveria ser OBRIGATÓRIO por pelo menos 3 meses e ninguém mais ia deixar de fazer até receber alta, além disso, o mundo ia ser muito, muito melhor para se viver.

Em 2005 eu fui apresentada a ela (a terapia) que tão eficientemente é conduzida pela querida Fabrícia, minha terapeuta. Ficamos domesticando, doutrinando e organizando as idéias durante algum tempo, mas antes do previsto eu interrompi as sessões e depois de uma pausa de, sei lá, uns onze meses, voltei correndo, na verdade, me arrastando.

Quanto ao foco, na verdade ele não muda, a gente camufla o motivo e vai falando de outro até chegar ao ponto que realmente nos leva a procurar ajuda (pode acreditar: palavra de quem já está escolada no assunto). E isso não é ruim, porque esse subterfúgio nos ajuda a ter o prazo necessário e se encorajar para falar sobre aquilo que mais nos aflige.
Não é fácil, é cansativo e às vezes até machuca, mas vale à pena.

E num dia desses, a Angélica, que, como o nome já diz é um anjo na minha vida, disse mais ou menos o seguinte: “... alguns assuntos, Zil, devem ser guardados numa caixa. Você não precisa jogar fora, fazem parte da sua vida, só não servem mais. Então, guarde numa caixa e coloque em cima do armário, num lugar que só de pensar em pegar a escada pra tirar a caixa de lá já te dá preguiça, então deixe a caixa lá. Um dia você vai fazer uma limpeza e quando perceber já vai ter condição de decidir se a caixa continua ou se pode ir pra outro lugar...”

Pensei muito nisso e cheguei à seguinte conclusão: não é tão fácil colocar em cima do armário algumas caixas, tem todo um processo: pega a história, olha pra ela, fica com dó ou medo de guardar, depois coloca na caixinha, daí fica olhando mais um pouquinho pra ela antes de colocar a tampa e finalmente ficamos com essa caixinha no colo por um tempo até conseguir pegar a escada, encostar-se ao armário, subir o degrau, esticar o braço e empurrar lá pro fundo...

Viu só como não é fácil? Isso também é trabalhoso. Mas é claro, não é necessário se cobrar tanto, a gente vai trabalhando o assunto na terapia e na hora certa essa caixinha sobe.

Eu estou com uma caixa aqui, bem no meu colo neste momento. Já fechei e já peguei a escada, mas ainda está faltando um pouquinho de força pra subir e colocar em cima do armário, mas sei que vou fazer isso... Antes mesmo de a chuva passar...